quarta-feira, dezembro 21, 2005

Acorda amor


Gosto de música clássica, mas até pouco tempo atrás nunca tinha ido ao Theatro Municipal. De um ano (exatamente) para cá, fui quatro vezes: dois balés, uma ópera e um concerto. O que tenho a dizer sobre a casa? Não existe construção mais bonita no mundo (no meu mundo, pelo menos)! Os afrescos nas paredes e tetos, os detalhes de gesso nas pilastras... nossa, que beleza!

A última dessas quatro vezes foi ontem, terça-feira 20, na festa de fim de ano da Unicred, braço financeiro da Unimed. Tínhamos sete convites e acabaram sobrando dois, já que um dos meus irmãos resolveu não ir. Chega a ser um crime ter dois ingressos para o balé "A Bela Adormecida", de Tchaikovsky, e não usar. Mais criminoso é recusar o convite!

Eu conheço a história da princesa Aurora, escrita por Charles Perrault, desde pequeno. Desde os disquinhos coloridos da Disney. Mas algumas coisas são diferentes do que eu lembro: na minha memória, por exemplo, Aurora se fere com uma roca de fiar, e daí cai no sono de cem anos; na versão do balé (já não sei mais qual a versão de Perrault), a bruxa penetra na festa de aniversário da princesa e, fantasiada de anciã da corte, a presenteia com uma rosa. A diferença é de apenas uma letra, roca para rosa, mas enfim, é como eu me lembro.

O balé é maravilhoso, mas não completamente isento de críticas. Gostaria muito de um papo com o cenógrafo: eu lhe perguntaria o que faz um beija-flor e uma arara num conto popular francês. Que eu saiba, são pássaros tipicamente americanos... A floresta que o Príncipe Désiré tem de enfrentar também está verde demais, amazônica demais, para os padrões europeus.

Pode ser implicância minha, ou talvez minha inexperiência com espetáculos desse porte, ou ainda o fato de estar sentado na primeira fila, mas os bailarinos me pareceram um tanto trêmulos e de movimentos instáveis, como não seria natural de se encontrar no corpo de baile do Municipal. Não todos, é claro: os personagens principais se saíram muito bem, e por isso talvez tenham sido escolhidos para os personagens principais. As crianças também foram muito bem: apareceram na Valsa da Bela Adormecida, na cena anterior à entrada da princesa Aurora no salão para sua festa de aniversário, valsaram bonitinho e saíram. Fico imaginando a cara de uma criança ao lhe ser dito: "olha só, você foi escolhido(a) para dançar 'A Bela Adormecida' no Theatro Municipal, tá?" Fico arrepiado de pensar; não que eu gostaria de ser bailarino, mas é a realização de uma vida aos 11 anos de idade!

Preferi "La fille mal-gardée", de Ferdinand Harold, apresentada ano passado na festa de fim de ano da Unicred. Conta a história de uma mulher prometida a um rico fazendeiro, mas apaixonada por um pequeno agricultor. Uma premissa bastante clichê, mas bem desenvolvida, com uma coreografia lindíssima e, principalmente, bem realizada. "A Bela Adormecida" foi bom, mas ficou devendo.